11 de jul. de 2019

Rimas da co-criação

Para quem não se liga muito em rap, especialmente o produzido em nossas terras, talvez desconheça que este gênero musical tenha perdido espaço significativo para o funk, sejam nos bailes da periferia, festivais de música, emissoras de rádio ou até nas redes sociais. Com isso, a produção de videoclipes dos rappers brasileiros também sofreu um bocado, rara as exceções.

No entanto, com a renovação de nomes, encabeçada por Criolo, Emicida, Rael, Rashid e Rincon Sapiência (na verdade esses já estão na trilha das rimas e levadas há um bom tempo), entre outros, o rap nacional traz novos ares e indica caminhos promissores, tanto para o movimento em si como fora dele, inclusive na forma de se pensar e fazer comunicação em tempos digitais. Exemplo é o filme "Bluesman", do Bacu Exu do Blues. A iniciativa traz uma mistura incrível de linguagens e técnicas de produção audiovisual, equilibrando de maneira cirúrgica conscientização, ficção, arte, poesia e entretenimento (não apenas como sinônimo de diversão). Tudo condensado em 8 minutos e 15 segundos de duração.

A reflexão e autorreflexão sobre este trabalho não se limita à qualidade do vídeo em si, porém em todo o seu processo de concepção e desenvolvimento, ou seja, na capacidade de juntar uma diversidade impressionante de talentos, indo da rima visceral do mc baiano, passando pela produção impecável, ao crivo dos realizadores, além de toda coletividade para viabilização do projeto. Ao unir ampla frente de criação, planejamento e execução, aparentemente inviável para olhos míopes e sedentos por grandes verbas de marketing, surge algo com propósito genuíno, nascido em um ambiente de co-criação, conceito muito falado mas pouco visto na prática.

Sugiro assistir, ouvir e sentir. E fica o convite para compartilhar cada impressão.

P.S.1: parabéns a todos vocês que participaram do filme "Bluesman" e obrigado por abrir as portas das novas possibilidades de se comunicar e produzir comunicação.

P.S. 2.: logo abaixo do vídeo, no Youtube, tem a ficha técnica do projeto.

2 de jan. de 2018

Os sulgos coloridos da Fuloresta de Siba

Em 2007, a sonoridade típica do nosso nordeste rural veio a colorir as 12 faixas do CD Toda Vez que Eu Dou Um Passo / O Mundo Sai do Lugarde Siba e a Fuloresta. Composta por músicos de Nazaré da Mata, município de Pernambuco, a banda registra a musicalidade de um Brasil que parece passar despercebido pela grande mídia tupiniquim.

Críticas à parte, essa obra foge dos rótulos e das datas de validade ao mostrar toda a sua riqueza, criatividade e originalidade, sem falar do seu aspecto documental. Em meio a ritmos tradicionais, Siba dá um tempero inovador em cada canção, seja por meio das levadas de guitarra, arranjos da orquestra de metais ou participações especiais.

Toda Vez que... acaba de ganhar sua edição limitada em vinil, de 500 unidades, fazendo os toca-disqueiros incansáveis rasparem o tacho da conta bancária em busca dessa joia rara. A chegada do LP gravado lá na República Tcheca será celebrada com a aterrissagem de Siba e a Fuloresta sobre o palco do Sesc Pompéia, em São Paulo, nos dias 13 e 14 de janeiro!

Ao clima das cirandas, cocos-de-roda e repentes desse Brasilzão encantador e alegre, desejamos um 2018 de energia da boa com a apresentação de Siba e a Fuloresta na gravação do CD/DVD no Itaú Cultural há 10 anos...

26 de out. de 2017

Piano em tempos de blues

Em homenagem ao emblemático pianista Fats Domino, que acaba de deixar este plano terreno, o Cantos e Cantigas compartilha o documentário Piano Blues, dirigido por Clint Eastwood e lançado em 2003. O filme faz a gente embarcar em uma viagem pelo tempo em que ícones sagrados do blues norte-americano nos presenteiam com sonoridades repletas de virtuosismo e sentimento. Parte da série The Blues, produzida pelo cineasta Martin Scorcese, Piano Blues é uma daquelas obras capazes de nos levar ao passado, mostrando que artistas de alma rompem, de maneira sutil, qualquer  rotulagem ou tentativa de serem datados.

Thanks Fats! Thanks a lot!



30 de nov. de 2016

Bom batuque de fim de ano

Entre os mega eventos caça-níqueis dedicados à musica e entretenimento, algumas iniciativas realizadas em terras paulistanas mantêm-se fiéis à programação de qualidade e entradas a preços sensatos. Uma destas ações é o Festival Batuque, que possibilita, ao público, um panorama da cena hip-hop, seja no espaço ou no tempo.

Na edição deste ano, o SESC Santo André continua com a proposta de diversidade, a começar pelo Digable Planets que sobe ao palco como a atração internacional nos dois dias do encontro. O trio nova-iorquino composto por Ishmel "Butterfly" Butler, Mary Ann "Ladybug" Vieira e Craig "Doodleug" Irving ganhou prestígio no início dos anos 1990, ao combinar levadas fluídas e cadenciadas às bases recheadas de elementos jazzísticos e eletrônicos. Atualmente, os integrantes tocam projetos paralelos ao DP.

Porém, as participações de pesos-pesados do rap nacional, como Black Alien e Criolo, devem fazer a diferença para encher o local. Voltando com força máxima, em 2015, o rapper são-gonçalense de estilo único fecha a noite de sábado (17), mandando sons de seus dois discos: "Babylon By Gus Vol. I - O Ano do Macaco" (2004) e "Babylon By Gus Vol. II - No Princípio Era o Verbo" (2015). Já no domingo (18), o encerramento fica por conta do mc da zona sul de São Paulo e seu repertório impressionante, acrescido de versatilidade incomum no jeito de musicar pensamentos e sentimentos. Para quem for, vale a dica de não perder tempo com os uniformizados de grifes do gênero que insistem em fazer tipo, tentando ofuscar o alto padrão sonoro ecoado no Festival Batuque.

Clique aqui para conferir o agenda completa do evento e comprar ingressos, disponíveis a partir de 6 de dezembro. Bom espetáculo!


20 de out. de 2016

Primus e suas doçuras

Em janeiro de 2015, o Cantos e Cantigas compartilhou um texto breve para divulgar o link que levava direto ao registro da apresentação do Primus no intimista estúdio da rádio WNYC'S Green Space, em NYC. Nesse espetáculo, o mundo imaginário do longa-metragem A Fantástica Fábrica de Chocolate, de 1971, ganhou acordes e arranjos pelo trio fora da caixa, nascido por volta de 1986, em San Francisco, CA. Entre as psicodelias sônicas lançadas ao vivo e em cores, estava Candy Man, faixa que ganhou videoclipe literalmente animado e colocado no ar em novembro do ano passado. O resultado dessa mistura de doces com as bordoadas sonoras de Les Claypool e seus chegados nós servimos para manter a preferência dos bons apreciadores da música nada convencional.

Direção do vídeo por Ivan LandauEdgar Alvarez Webster Colcord


8 de mar. de 2016

Dias de conversa da boa com a Andreia

Desde os tempos da nada convencional Banda Dona Zica, passando pela versátil Banda Glória, a multifacetada Andreia Dias (sem acento mesmo) tem abusado do seu talento vocal, acrescido de uma boa dose de dramaturgia. Tanto no estúdio como no palco, a moça mantém o fôlego e conduz o seu canto por um caminho onde as fofocas midiáticas não surtem qualquer efeito.

Marotos e cadenciados léros de samba do morro. Duos despojados que parecem surgir em meio à molhada de bico no balcão do bar da esquina. Bate-papos do além a parafrasear a vida e suas nuances sobre ritmos tropicais ou de outras moradas. Assim, há mais de uma década e pedaladas, essa paulistana ponta-firme mete o bedelho em projetos repletos de paixão e devoção à música.

Basta escutar qualquer um de seus álbuns para cair a ficha de que a sonoridade da intérprete está longe daquelas conversas forçadas de vizinhos quando pegam o mesmo elevador. Infelizmente, as emissoras de ondas curtas, médias e longas de nossas terras dão de ombros, fingindo não escutar o que essa voz feminina tem a dizer e cantar.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Discografia
Andreia Dias Vol. 1, 2008
Andreia Dias Vol. 2, 2010
Pelos Trópicos, 2013
Prisioneira do Amor, 2015
Poderosos Aliados, 2016


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6 de fev. de 2015

Tributo a Jacob Miller

Considerado um dos reggae men mais respeitados de todos os tempos, Jacob Miller fez parte da primeira geração do grupo Inner Circle, de 1974 a 1980, que, depois deste período, seguiu pela estrada do sucesso e dos hits. Devido a um acidente, este músico jamaicano e integrante dos Rockers (caracterizado por um grupo de artistas da ilha a propagar um pensamento mais engajado social e politicamente), ele deixou este plano terrestre em 23 de março de 1980, sem ainda ter completado os seus 28 anos de vida.

Mesmo com a sua partida física, a voz única e malemolente de Jacob Miller tornou-se eterna aos ouvidos menos conservadores. Para compartilhar a importância deste figura da cena reggae mundial, o blog Midnight Raver, de Washington DC, EUA, preparou este tributo de incalculável valor sonoro e espiritual, com várias pedradas de JM.

28 de jan. de 2015

Primus no mundo do Wonka

Durante o último Halloween, a musicalidade sarcástica e emblemática do Primus habitou o WNYC'S Green Space, de Nova York,  por quase 50 minutos. Além da experiência sonora fora do prumo, o trio (em sua formação original) se apropriou do universo de Willy Wonka e sua fantástica fábrica de chocolate de uma maneira bem criativa e original sobre o pequeno espaço. Confira o vídeo desta apresentação memorável em http://bit.ly/1CN0lu2

Foto: reprodução.


14 de nov. de 2014

Novo do Criolo

Sem alastrar ou gerar polêmica para garantir divulgação na tendenciosa mídia brasileira, Criolo chega com o novíssimo Convoque Seu Buda. Transitando em levadas criativas que vão do estilo despojado às rimas pesadas, já presentes no trabalho anterior, o músico segue firme e forte sem cair nas armadilhas da mesmice e a percepção aflorada para captar tudo o que acontece ao seu redor para transformar em ritmo e poesia, conhecido mundialmente como rap.

Enquanto diversos críticos, estudiosos ou fofoqueiros de plantão ficam na espreita de um vacilo do artista originário da zona sul de São Paulo para terem o que falar e escrever contra, Criolo nos presenteia com uma obra rica e repleta de sentimento, sinceridade, musicalidade e atitude, características em extinção na tal elite cultural tupiniquim. Longe de qualquer trocadilho desnecessário, Convoque Seu Buda é um presente de forma literal, pois é possível ouvi-lo ou baixá-lo gratuitamente.  Quem quiser conferir as 10 músicas do novo álbum (produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral e mixado por Mario Caldato Jr.) e as datas das apresentações do rapper, basta clicar aqui.

7 de nov. de 2014

Heebie Jeebies

Depois de um bom tempo sem gravar, o Hieroglyphics chega com uma nova sonoridade. O cabuloso coletivo de rap de Oakland, na Califórnia, EUA, se reuniu no Red Bull Studios, na costa leste norte-americana, e lapidou "Heebie Jeebies", lançada há uma semana, que o Cantos e Cantigas compartilha abaixo. A produção do som ficou por conta de Gully Duckets.

31 de out. de 2014

Novas do Budos

Com os instrumentais sempre bem afinados, o Budos Band está na praça novamente com um disco recheado de levadas que reverenciam as diversas facetas do groove, transitando tranquilamente do rock psicodélico ao afrobeat, mas sem precisar de qualquer rotulagem. Intitulado Burnt Offering, o álbum da banda chega, neste mês de outubro, pelas mãos da respeitada Daptone Records e já está disponível no mercado nos formatos físicos e digitais. Abaixo, confira "The Sticks", que integra este novo e precioso trabalho sônico.
 

18 de out. de 2014

Riscos revolucionários

Nome de respeito no hip hop mundial, o DJ Revolution domina os toca-discos de uma forma única, sempre com bases pesadas, colagens sinistras e schratches alucinantes. Tendo uma passagem pelo Brasil no primeiro semestre deste ano, quando gravou um EP com rappers nacionais no Red Bull Station, em São Paulo, o DJ e produtor, local de Los Angeles, EUA, mostra a arte dos riscos e samplers nesse vídeo captado em seu QG sonoro.

3 de out. de 2014

Rima afiada e afinada do Kalvo

Recentemente, o Cantos e Cantigas conheceu o Vinicius Silva, nome dado no cartório ao o Kalvo, figura gente finíssima que faz um trabalho digno e de respeito no rap tipicamente nacional. Vindo da extrema sul da zona sul de São Paulo, especificamente de Parelheiros, o emecee não limitou-se a compor as suas letras apenas inspiradas na realidade do próprio bairro, mostrando originalidade e capacidade criativa niveladas por cima. A levada e o cuidado com as bases ou texturas sonoras de cada faixa produzida são outras qualidades que só somam no trampo artístico deste rapper. Abaixo compartilhamos a pesadíssima "Guerra Civil", música a revelar o verdadeiro campo de batalha no trânsito de qualquer cidade grande (e nada civilizada) do Brasil.

Agradecimento: Diogenes de Moraes Costa.

25 de set. de 2014

The History of DJ

A presença dos DJs, sem dúvida nenhuma, ganhou notoriedade mundial quando passou a aplicar técnicas e criatividade nos toca-discos ainda sem muitos recursos tecnológicos, como agulhas específicas, controles de bpm pelo pitch e sistema magnético de rotação (magnetic drive). Porém, esta figura já tinha sua importância na cena musical antes mesmo do surgimento do hip hop propriamente dito, como relata este documentário produzido pelo DMC World, responsável pelo maior torneio de DJs do mundo. Intitulado The History of DJ, o filme registra desde os primórdios da arte da discotecagem e da mixagem até os festivais de música eletrônica, onde o DJ exerce uma espécie de hipnose contagiante sobre o público presente.

Abaixo, confira o trailer deste documentário lançado em 2014.

18 de set. de 2014

Okinawa's noise

Composto por jovens de Okinawa, ilha de domínio nipônico, o trio feminino Bleach (ou Bleach 03) apresenta uma sonoridade repleta de atitude que repercutiu na cena independente planetária, em meados dos anos 2000. Formado por Miya (baixo), Kanna (guitarra) e Sayuri (bateria), o grupo traz, na sua essência, o lado cru do punk rock embebecido de riffs do trash metal ou de levadas pesadas do funk metal, mas sem perder a sutileza artística. Tudo bem elaborado e encaixado no lugar certo.

Outra particularidade do Bleach está no revezamento do vocal (cantado na língua nativa), já que as três integrantes se garantem no microfone, contribuindo significativamente na identidade sônica registrada nos álbuns Bleach 03 (2005) e Head That Controls Both Rights & Left Sides Eats (2007). Abaixo, o Cantos e Cantigas compartilha o vídeo de "Dead Blood", registrado em 2009.

Referências: All Music e Amoeba Music.

8 de set. de 2014

Novidades de Michels

Há alguns anos, o clássico álbum The Enter Wu-Tang (36 Chambers), do octeto nova-iorquino Wu-Tang Clan ganhou uma releitura instrumental impecável, com texturas funkeadas bem ao estilo setentista. Por trás deste projeto sônico de primeira grandeza estava o duo El Michels Affair, formado por Leon Michels (órgão e sax) e Nick Movshon (baixo). Agora, os caras, envolvidos também no selo Truth and Soul, se preparam para o lançamento de Loose Change, obra recheada de remixes, samplers  e  grooves  que, sem dúvida nenhuma,  levará nosso sentido auditivo e malemolência para uma dimensão nada acomodada. Enquanto a novidade sonora não chega, o Cantos e Cantigas compartilha a suingada "Little House".


1 de set. de 2014

Ondas dos trópicos

No episódio do programa Na Rota do Vinildesta segunda-feira, primeiro de setembro, Zé Gonzales desbravou as sonoridades latinas da Colômbia. Entre visitas aos estúdios, clubes e lojas de discos locais, o cabuloso DJ e produtor chegou ao Ondatrópica, projeto primoroso do músico nativo Mario Galeano e do músico produtor inglês Will "Quantic" Holland. Na missão enquietadora de saber mais, descobrimos que a iniciativa visa resgatar a música tradicional colombiana, como a cumbia, com pitadas modernas e muito bem encaixadas. Abaixo, o Cantos e Cantigas traz a mixtape Los Irreales, de 2012e já coloca o título na lista dos próximos LPs a serem adquiridos. Valeu Zegon!

22 de ago. de 2014

Na trilha do Easy Rider

Ao cruzar os Estados Unidos com as potentes e estilosas motocicletas, a dupla de protagonistas do clássico filme Easy Rider, de 1969, revelou um país marcado pelo moralismo truculento, racismo aflorado e alienação cultural, especialmente em suas regiões interioranas (é possível até perceber o lado paranoico que, desde então, vem consumindo parte deste povo). E todos os conflitos humanos apresentados neste road movie, dirigido por Dennis Hopper, acabam ganhando amplitude, mas sem forçar a barra, por uma trilha sonora de primeira grandeza do rock and roll. Steppenwolf, The Byrds, The Holy Modal Rounders, The Electric Prunes, Roger McGuinn e The Jimi Hendrix Experience, entre outros nomes, compartilham do mesmo espirito libertador que unia os jovens menos acomodados da época, tidos como subversivos pr boa parte da sociedade estadunidense.

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